domingo, 20 de setembro de 2015

Sarajevo: múltipla e dividida

Em Sarajevo, vivo num bairro onde há uma mesquita, uma igreja franciscana e uma sinagoga. Se caminhar em direcção ao rio estou a 5 minutos de uma igreja ortodoxa, a poucos metros da maior catedral da Bósnia, e da mesquita Gazi Husrev-begova, a mais representativa da presença otomana em Sarajevo.

Se por vezes me sinto privilegiada por poder caminhar pelas ruas de uma cidade tão diversa, onde posso ouvir simultaneamente a chamada à oração dos minaretes e o tocar dos sinos das igrejas, outras vezes sou confrontada com as paredes esburacadas por balas, e a lembrança da história de divisão e conflito desta cidade.

Antes da guerra, Sarajevo era conhecida como a “Jerusalém da Europa”, uma cidade onde coexistiam diferentes religiões e etnias, e um símbolo de tolerância e coexistência pacífica. Quase todas as histórias que li sobre Sarajevo começam assim, com a nostalgia de uma cidade multicultural e pacífica. Depois surge o conflito, o crescimento dos movimentos nacionalistas, o desmantelamento da ex-Jugoslávia  e depois a guerra fratricida.

Bósnios sérvios opõem-se a bósnios muçulmanos, numa divisão que ainda permanece na cidade. Com a assinatura dos Acordos de Dayton em 1995, acordos entre os grupos étnicos que terminaram a guerra, a Bósnia foi dividida em duas entidades: a Federação, que representa os muçulmanos e os croatas, e a República Sérvia que representa os sérvios. Sarajevo foi dividida em duas administrações locais autónomas: o centro de Sarajevo é parte da federação; o leste da cidade, que emergiu como um bairro suburbano, é integrado na parte sérvia.


Apesar de não existir uma barreira física a dividir as duas partes da cidade, a separação é clara: Sarajevo tem duas estações de autocarros, duas universidades, dois sistemas escolares diferentes. Bósnios muçulmanos (conhecidos como bosníacos) estudam por livros diferentes dos bósnios sérvios, aprendem diferentes versões da história.

Apercebi-me da divisão quando cheguei à cidade vinda de Montenegro, e tive que sair na estação de autocarros do leste, onde chegam todos os autocarros vindos da Sérvia, Montenegro e da parte sérvia da Bósnia. Todos os outros chegam à estação central de Sarajevo.

Bosníacos-muçulmanos, Croatas-católicos e Sérvios-ortodoxos compõem e dividem a Bósnia pós-Dayton, e estes três grupos étnico-religiosos têm sempre que estar representados. Foi definido que a presidência da Bósnia seria tripartida e reservada aos três grupos, que rodam o cargo a cada 8 meses. O sistema político bósnio foi considerado um dos mais complexos do mundo.

Cada grupo tem a sua religião e a sua língua: o Bósnio, o Croata, e o Sérvio, apesar de serem línguas semelhantes, que diferenciam tanto como o inglês britânico do inglês americano. Para fins oficiais, tudo deve estar escrito nas três línguas, mesmo que a frase seja idêntica. Por isso nos maços de cigarros se lê: pušenje ubija, pušenje ubija, pušenje ubija. A Bósnia é o único lugar do mundo onde fumar mata três vezes.
Fumar mata: em bósnio, croata e sérvio
Há pouco espaço para uma identidade simplesmente “bósnia”, para os que não querem ser colocados em nenhuma das três categorias étnico-religiosas, e talvez ainda mais grave, pouco espaço para minorias. A constituição bósnia divide o poder entre os três grupos que têm que estar representados, deixando de fora as minorias. Por isso, foi levada ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em 2009, por representantes das comunidades judaicas e ciganas, e considerada discriminatória.

Antes da guerra, Sarajevo tinha uma grande percentagem de casamentos interétnicos, não era difícil encontrar numa mesma família várias origens e religiões. No Festival de Cinema de Sarajevo, o realizador bósnio-dinamarquês Vladimir Tomic contou a história de um amigo que vinha de uma família com raízes sérvias e muçulmanas. Durante a guerra foi recrutado simultaneamente pelas forças sérvias e bósnias. “Decidiu fugir de Sarajevo para não ter que disparar contra ele próprio”, disse Vladimir.

Hoje, os casamentos mistos são mais raros. Cada grupo cresce geralmente separado, aprende uma versão da história e tem pouco contacto com “o outro” que vive na cidade vizinha ou no lado oposto da mesma cidade.

 “Quando falamos sobre a guerra há sempre conflito, cada um tem a sua versão da história e não nos entendemos”, disse-me Strahinja, bósnio sérvio que vive no leste de Sarajevo e estuda Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Sarajevo. “Mas quando estamos em festas ouvimos e cantamos as mesmas músicas, somos todos irmãos.”

domingo, 6 de setembro de 2015

Bósnia: chegar a Sarajevo

Cheguei a Sarajevo a meio de Agosto, mas demorei muito tempo a escrever as primeiras palavras sobre a cidade onde ficarei a morar nos próximos meses. Sarajevo é difícil de descrever. Cada dia esta pequena cidade apertada entre as montanhas me parece diferente. As cores parecem mudar, há novos pormenores em que reparo. Sarajevo é misteriosa, estende-se ao longo do rio, vagarosa.

Cheguei a carregar o fardo de tudo o que tinha lido e visto sobre a cidade antes de a visitar pela primeira vez: a “Jerusalém da Europa”, a guerra entre 1992 e 95, o mais longo cerco da história moderna. Com o desmantelamento da antiga Jugoslávia, a Bósnia, onde muçulmanos, sérvios ortodoxos e croatas católicos coexistiram durante séculos, entrou em guerra. Entre 1992 e 1995 cerca de 100 000 pessoas foram mortas. O cerco de Sarajevo por tropas sérvias durou 1 425 dias. Envolveu artilharia pesada e disparos sobre todas as cabeças: mulheres, crianças, e até animais domésticos.

Durante dias vivi a cidade a partir dessas imagens e números, que vinham sempre assombrar-me com evocações guerra. Ao olhar as montanhas que rodeavam a cidade não via a sua beleza, mas pensava nos snipers que lá se escondiam há 20 anos. Nas ruas não via as fachadas coloridas do período austro-húngaro, ou a influência otomana do bairro antigo de Baščaršija, mas os buracos de balas e bombas nas paredes, deixados abertos como feridas que não saram.


Via homens amputados nas ruas, e lembrava-me de ler que tantos braços e pernas eram cortados com serras, muitas vezes sem anestesia. Observava as pessoas sentadas no eléctrico que percorre a cidade ao longo do rio, e perguntava silenciosamente com o olhar: onde estavas há vinte anos? 

Durante a guerra, Sarajevo era uma cidade sem gatos e sem árvores. Só havia cães esfomeados a vaguear pelas rua porque os donos fugiam da cidade ou não podiam alimentá-los. Por isso, os cães devoravam os gatos que restavam. As árvores eram cortadas para queimar lenha durante os cortes de electricidade, ou para que as famílias conseguissem aguentar o frio no inverno. Às vezes eram usados livros para fazer fogueiras. Pergunto-me que escritores terão aquecido as noites mais frias.

Mas em Sarajevo já há gatos e árvores. Há ameixeiras e salgueiros a crescer junto ao rio. Há toda uma cidade que vive e que vibra, que consegue encontrar piadas sobre a guerra e rir sobre os piores momentos. “O sentido de humor era a única coisa que nos restava”, disse-me Alija, um Bósnio que conheci numa livraria no centro da cidade, e que vive em Chicago, onde há um grande número de imigrantes bósnios. Alija visita Sarajevo todos os anos no Verão, não só pelas memórias que o ligam à cidade onde cresceu e à família que ainda cá vive, mas pela beleza de Sarajevo que sempre o surpreende e aconchega. 

Sarajevo vive para além da guerra, mesmo que o turismo na cidade gire em torno dos tours do cerco e dos snipers, dos museus e galerias sobre massacres, das souvenirs da guerra. No bairro mais turístico vendem-se canetas feitas com balas, porque escrever é uma arma, e porque Sarajevo se reescreve. 

Canetas feitas a partir de balas

A minha primeira semana na cidade foi caótica, passada a "trabalhar" no festival de cinema de Sarajevo, que enche a cidade de movimento. Vi dezenas de filmes, entrevistei realizadores e conheci pessoas do mundo inteiro, do México a Singapura. Conheci Danijel, de Banja Luka, no norte da Bósnia, e juntos vimos vários filmes. O favorito de Danijel foi um documentário sobre as florestas bósnias, que entediou a maioria dos espectadores internacionais, mas para ele foi o melhor documentário sobre a Bósnia, “porque não era sobre a guerra”.

Ao final da tarde, subimos até um dos miradouros da cidade para ver o pôr-do-sol. Tons dourados preenchiam o céu, andorinhas voavam junto ao rio, e enquanto se ouvia a chamada para a oração vinda das várias mesquitas de Sarajevo, uma paz surpreendente instalava-se sobre a cidade, num desses momentos que tornam um lugar inesquecível. Sarajevo é assim: cativante, misteriosa com todas as suas cicatrizes. 

Já há gatos em Sarajevo

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Kosovo: de onde vens?

Para chegar ao Kosovo do sul da Sérvia tive que apanhar quatro autocarros e dois táxis. Gastei quase dez horas, sentada em autocarros abafados e rodoviárias poeirentas, para percorrer pouco mais de 300 km.
Parecia simples, ir de Guča, a pequena aldeia sérvia que em Agosto entra em festa com o famoso festival de trompetes, para Pristina, no Kosovo, que no mapa parece tão perto. Mas nada nos Balcãs é assim tão simples, e cidades que no mapa parecem próximas podem estar radicalmente distantes, como acontece entre a Sérvia e o Kosovo.

Festival Guča
De Guča, onde passei alguns dias cacofónicos (e incrivelmente divertidos), a ouvir Goran Bregovic e a ser regada com cerveja e rakija, apanhei um autocarro para Čačak, e de lá para Kraljevo, onde deveria ser fácil encontrar um transporte para o Kosovo. Mas na estação de autocarros disseram-me que não havia nenhum transporte directo da Sérvia para Pristina, e que teria que apanhar um autocarro para Mitrovica, cidade dividida entre uma parte sérvia no norte, e uma parte albanesa/kosovar no sul.

Em 2004, a violência entre a comunidade sérvia e a comunidade albanesa reacendeu no Kosovo, e Mitrovica foi um dos principais palcos dos conflitos. Apesar de grande parte da cidade ter sido reconstruída, ainda tive a sensação de estar a entrar num campo de batalha, com tanques a patrulhar as ruas e bandeiras a cada 10 metros a separar os limites da cidade: o norte com bandeiras sérvias, e o sul com bandeiras albanesas.

Quando cheguei à estação sérvia de Mitrovica tive que negociar com os taxistas a viagem de 10 minutos para o lado albanês, para poder apanhar um autocarro na estação albanesa para Pristina. O taxista que me levou argumentou que era perigoso entrar com uma matricula sérvia na parte sul, o vidro do táxi estava partido. Mas lá aceitou levar-me, sempre com o pé no acelerador. 

Cheguei a Pristina ao final da tarde. O dia que tinha começado com um autocarro apanhado às 9 da manhã na Sérvia já estava no fim, e os hostels da cidade estavam todos cheios. Foi a simpatia de estranhos que me salvou, desta vez porque num dos hostels me deixaram ficar a dormir no sofá sem pagar nada.

Pristina
No meu primeiro almoço em Pristina comi falafel e pão pita, num jardim onde pétalas de flores caídas das árvores iam preenchendo a mesa, o meu colo, o prato. O empregado perguntou-me de onde eu vinha, e pôs a tocar um álbum de Mariza antes de trazer a refeição. Flores, Mariza e falafel: Pristina é uma cidade inusitada.  

"De onde vens", é a primeira pergunta que todos fazem, mesmo que me tenha dirigido a alguém só para pedir direcções ou para perguntar onde são os correios. “De onde vens?”, pergunta-me um homem que me vê a caminhar na rua de mochila às costas. Parece satisfeito quando ouve Portugal. “É um bom país”, diz-me, “reconhece-nos”, ao contrário da vizinha Espanha. 

Chamava-se Skender, era engenheiro electrotécnico e vinha de uma aldeia perto de Peja, cidade próxima da fronteira com o Montenegro. A declaração de independência do Kosovo, em 2008, foi reconhecida por mais de 100 países, mas a Sérvia, e países como a Espanha, a Rússia e a Grécia ainda não a aceitam, vendo o Kosovo como parte da Sérvia. 

Falei ao Skender das minhas viagens, e ele ouviu com curiosidade, mas mostrou pouco interesse em viajar. É no Kosovo que quer estar, e dos outros países só espera o reconhecimento. "Espero que um dia todos reconheçam o Kosovo como um país independente", disse-me antes de nos despedirmos. Para ele seria melhor do que conhecer todos os outros países do mundo. 

Entrada de uma igreja e ao fundo mesquita em Prizren, no sul do Kosovo

sábado, 15 de agosto de 2015

Budapeste Judaica

Na minha última entrada falo sobre como os estranhos nos podem surpreender com actos de bondade desinteressada. Mas em Budapeste também me deparei com a crueldade. A absoluta crueldade que se pode dirigir a desconhecidos, sem nome ou rosto, só porque pertencem à religião ou etnia errada.

O turista que passeia pelas margens do Danúbio junto ao Parlamento Húngaro depara-se com um memorial das vítimas do partido húngaro nazi. Em 1944, cerca de 15 mil pessoas foram mortas, quase todos por serem judeus. Muitas eram alinhadas junto ao rio, obrigadas a tirar os sapatos, e mortas. O Danúbio levava os corpos.




Naquela altura o Danúbio não era azul, mas vermelho. Vermelho com o sangue dos judeus”, escreveu Eva Bentley, sobrevivente húngara do Holocausto. Can Togay e Gyula Pauer criaram o memorial em 2005: 60 sapatos espalhados pelas margens do rio, como se tivessem sido acabados de tirar. Com os meus, 61. 



Registos da presença judaica na Hungria remontam ao século IX, acompanhados também por uma longa história de anti-semitismo. Durante a peste negra os judeus foram expulsos do país, eram frequentes os libelos de sangue e as expulsões. No início do século XX a comunidade judaica na Hungria era uma das maiores da Europa, e estava relativamente bem integrada. Os judeus ocupavam posições de prestígio na ciência, arte e comércio, e em Budapeste constituíam cerca de 20% da população.

Nos anos 20, leis anti-semitas começaram a ser aprovadas, e a posição dos judeus húngaros foi piorando com o alinhamento da Hungria à Alemanha nazi. Leis anti-semitas semelhantes às nazis foram aprovadas, e em 1941 começaram a ser deportados judeus sem nacionalidade. Em 1944 inicia-se a deportação massiva de judeus húngaros para campos de concentração. No Holocausto houve cerca de 500 mil vítimas húngaras, número que só é ultrapassado pelas vítimas polacas e russas.

A comunidade judaica em Budapeste ainda é uma das maiores da Europa, mas o anti-semitismo ainda é uma realidade. Recentemente, na Hungria, tem-se assistido a um ressurgimento de ondas anti-semitas. Em 2013, um relatório publicado pela Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) revelou que 90% dos judeus húngaros inquiridos sente que o anti-semitismo é um problema na Hungria, e que 43% viu outros judeus a serem insultados ou agredidos. O partido húngaro de extrema-direita, Jobbik, conhecido pelas declarações racistas e anti-semitas, foi o terceiro mais votado nas eleições do ano passado.

Li as memórias de Imre Kertész, sobrevivente húngaro do holocausto e e prémio Nobel da literatura, com um aperto no estômago. Já sabia de tudo: os guettos, os disparos no Danúbio, Auschwitz... mas nunca se sabe realmente. Nunca entendi como tudo isso pode acontecer, como se pode guardar tanto ódio e desprezo por uma massa desconhecida, sem nome e sem rosto, da qual só se distingue a estrela amarela.

Caminhei pelas ruas de Budapeste, onde a presença judaica ainda é muito visível, sem nunca conseguir entender. 


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Budapeste: sobre a bondade de estranhos

A minha mãe nunca me disse para não falar com estranhos, mas sempre que viajo ela preocupa-se, porque viajo sozinha e porque o mundo parece um lugar perigoso. Desde que comecei a viajar que recebo avisos, dizem-me para ter cuidado, para desconfiar sempre. E no entanto, ao contrário do que as notícias transmitem e dos avisos que recebo, tenho sido sempre surpreendida pela bondade de estranhos, pela simpatia genuína que tenho encontrado um pouco por todos os lugares por onde passei.

Na Irlanda, a simpatia de todos os condutores que me deram boleia, e que às vezes fizeram desvios para me deixar no meu destino. Em especial um casal que conheci no centro da Irlanda, em Cloughjordan, e que me convidou para entrar em casa e me ofereceu bolo e chá. Continuei a encontra-los na minha estadia em Cloughjordan, e no dia em que tive que partir ofereceram-me uma caneta porque sabiam que gostava de escrever. Fiquei enternecida com o presente cuidadosamente embrulhado, sem saber o que dizer ao casal que sem hesitação abriu a sua casa a uma completa estranha.

Na Holanda, foi o homem que gastou a sua hora de almoço a guiar-me pelo centro de Haia, quando me viu acabada de chegar à cidade e perdida. Levou-me aos principais pontos da cidade, e ainda se ofereceu para guardar as minhas coisas no seu escritório. No Brasil, o camionista que me deu boleia de Porto Alegre até à fronteira no Uruguai, e que encheu a viagem de quase 7 horas de histórias que ia contando com boa-disposição e entusiasmo. Em Marrocos, a mulher que conheci num táxi colectivo em direcção para Assilah. Guiou-me com orgulho pelas ruas tortuosas da sua cidade, convidou-me para entrar em sua casa e ofereceu-me tâmaras e chá. Alguns dos nomes eu já esqueci, mas os rostos estão gravados no que é, para mim, um retrato colectivo da bondade de estranhos. 

Na Hungria continuei a surpreender-me. Marc, um filipino que vive em Budapeste há quase 8 anos, viu um anúncio que deixei na internet à procura de uma bicicleta para os dias que me restavam na cidade. Enviou-me uma mensagem a dizer que me emprestava a dele, porque estava parada e eu ia com certeza dar-lhe melhor uso. Quando combinámos encontrar-nos num café, confesso que ia desconfiada, não sabia o que esperar, qual seria a contrapartida. Mas eis que aparece Marc, sorridente, numa bicicleta peugeot azul, linda. Aparece ofegante e a transpirar, porque teve que pedalar do sul da cidade até aquele café no calor do Verão de Budapeste, que naquela tarde chegava aos 35 graus. Disse-me que podia ficar com ela até quando quisesse, não me pediu contactos, nem sequer que especificasse o dia em que ia embora, bastava que deixasse a bicicleta no café que era de um amigo quando já não precisasse dela.

Obrigada, Marc!
E assim sai do café perplexa, a pedalar pelas belas ruas de Budapeste. Os meus dias ficaram muito mais ricos com os passeios junto ao Danúbio, e com a certeza de que o mundo não é um lugar assim tão hostil e perigoso, e que há sempre agradáveis surpresas. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Marrocos: o estigma das mães solteiras

Conheci o Abdellah em Fez, essa magnífica cidade-labirinto, onde me perdi pelas ruas estreitas que iam dar a fontes, mesquitas, curtumes. Passámos juntos um dia incrível, entre a pequena cidade de Sefrou, a 30 km de Fez, e Bhalil, uma aldeia pitoresca com casas escavadas nas rochas. Ao fim da tarde voltámos a Fez, para ver o pôr-do-sol das ruínas dos Túmulos Merínidas, a norte da cidade.

Pôr do sol em Fez
Primeiro foi a simpatia do Abdellah que me cativou, depois o seu trabalho como psicólogo. A acabar o mestrado de psicologia, o Abdellah trabalha com mães solteiras e crianças abandonadas, e dedica-se à educação sexual. Contou-me que trabalhou como psicólogo em várias associações que acolhiam crianças de rua, a maioria abandonada por mães solteiras. Limitava-se a ouvir as crianças, a dar a oportunidade que falassem “sem dar nenhum conselho ou dizer o que deviam fazer”, conta.

Através do seu cargo como vice-presidente de uma associação de trabalho voluntário muito focada na educação, sempre pôde estar muito ligado a projectos com crianças. Interessa-se sobretudo pela educação sexual em Marrocos, “como um país árabe e um país islâmico”, diz. A educação sexual, que é um tabu na sociedade marroquina, foi algo que procurou introduzir.


Como professor e psicólogo lembra-se de dois casos que o marcaram particularmente: o de uma rapariga inteligente e estudiosa, filha de uma mãe solteira, que marcada pelo estigma de ser “fruto de uma relação ilegal”, deixou a escola durante o ensino secundário por não aguentar a pressão imposta pelos colegas. Relações sexuais fora do casamento são ilegais de acordo com a lei marroquina. O artigo 490 do código penal marroquino prevê penas de prisão para quem não cumprir esta lei, e os filhos que nascem de “relações ilegais” carregam para sempre um pesado estigma.

Além disso, por vezes a lei marroquina favorece a impunidade de violadores. Vítimas de violação podem ser obrigadas a casar com os agressores para “preservar a honra da família”, como aconteceu com Amina Filalique preferiu suicidar-se a ter que viver como esposa do violador.

Mas para o Abdellah o caso mais marcante que acompanhou foi talvez o de uma adolescente que “andava na escola e tinha uma vida feliz, normal”, mas quando engravidou do namorado “o pesadelo começou”, conta. O namorado desapareceu, a família expulsou-a de casa e os amigos afastaram-se porque era uma rapariga socialmente condenada, que tinha caído em desgraça e perdido toda a honra, que é tão cara à sociedade marroquina. Acabou numa outra cidade, a prostituir-se para poder tomar conta do filho.

O Abdellah conta-me que é algo que acontece frequentemente. Muitas mulheres solteiras que engravidam e que são expulsas pela família, vendo-se sem apoio, acabam em redes de prostituição, porque são vistas como “mulheres perdidas”. As mães solteiras carregam um pesado estigma, muitas não conseguem sequer enfrentar os familiares com o fardo de um filho fora do casamento, que traria uma vergonha insuportável à família. Em troca de abrigo, comida, e de cuidados do bebé que vai nascer, vêem-se obrigadas a entrar na prostituição para pagar a protecção que lhes oferecem nos bordéis. Sem o apoio da família ou do governo, que “envergonham”, muitas não têm outra alternativa.

A Lei da Família aprovada em 2004 pelo governo marroquino, conhecida como Mudawana, deu às mulheres mais direitos do que a maioria dos estados árabes vizinhos, mas as mães solteiras continuaram a ser marginalizadas, mesmo quando a gravidez é resultado de uma violação. Os filhos nascidos fora do casamento não são reconhecidos, e as mães solteiras continuam excluídas da segurança social.

“Nada tem sido feito, só em algumas cidades há abrigos” para as mães solteiras, diz-me Abdellah. “Temos que mudar a maneira como vemos” estas mulheres, e “mudar a lei”. Mas “ o mais importante a ser feito é apostar na educação sexual”, ultrapassar os tabus e os estigmas sociais para melhorar a condição das mulheres.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Marrocos: sobre o viajante privilegiado

Nos últimos dias da viagem a Marrocos confrontei-me com uma realidade dura e desconfortável, e duas questões importantes: a do propósito da viagem e a do privilégio do viajante.

Éramos um grupo de seis: três australianos, um americano, um canadiano, e eu. Depois do jantar caminhámos pelas ruas da velha medina de Marraquexe à procura de um bar. Já era tarde, e eu vi uma mulher sentada num colchão velho no meio da rua, com três filhos embrulhados em mantas velhas.

Encontrámos o bar, mas o rosto da mulher não me largava. Em uma hora gastámos 600 dirhams em cerveja e cocktails. Empregados vestidos com fatos negros e chapéus turcos iam trazendo as bebidas, ouvia-se Frank Sinatra e da escuridão da janela só se distinguiam dois minaretes iluminados. Falámos sobre viagens, cidades, paisagens. A conversa pairava à superfície das coisas: lojas, museus, aviões, bares… tudo flutuante, fútil.

Quando saímos do bar outras mulheres se sentavam no meio da rua, com filhos, algumas sem colchão. Uma mão estendida saía vazia de um corpo tapado e adormecido. Saía das profundezas da minha consciência para me lembrar como o mundo é desigual. 600 dirhams numa hora, e uma mãe que só possui um colchão. Turistas que viajam da Europa, do Canadá, dos EUA, e essas mães que não saem nem da rua onde pedem esmola. 600 dirhams numa hora fútil, inútil, e essa rua vergonhosa com tantas mãos vazias, tantas mães sem tecto. Porque é que viajamos? É descoberta, aprendizagem, ou prazer egoísta, fútil?


Nunca conheci viajantes marroquinos. Nunca vi em hostels jovens de nenhum outro país africano. Viajar é um privilégio que poucos podem pagar, e a mobilidade a que como europeus nos habituamos não é partilhada por outras nacionalidades. Ter um passaporte europeu é ter acesso a caminhos privilegiados, portas abertas. É não ser interrogado nem mal recebido nos aeroportos.
Em Fez conheci Abdellah, um psicólogo marroquino que teve que esperar meses e pagar muito dinheiro para conseguir o visto que lhe permitiria participar num projecto de voluntariado na Alemanha. E, no entanto, os hotéis em Marrocos estão cheios de turistas alemães, que para entrarem no país só precisaram de mostrar o passaporte, como eu. Passaporte: um sorriso, e bem-vinda a África.

A minha pergunta é: como usar o privilégio de forma positiva? Ou, pelo menos, como não deixar que se torne em indiferença cómoda? Talvez gastar 600 dirhams de forma mais sensata. Talvez tentar compreender porque é que a pobreza nas ruas de Marraquexe tem o rosto de mulher, de mãe.
No dia seguinte encontrei a primeira mulher que vi com os seus filhos, desta vez junto à mesquita Kutubiya, a principal de Marraquexe. Um homem que falava um pouco de francês foi o meu tradutor. Aquela mulher tinha sido repudiada pelo marido, e como não tinha o apoio da família, nem estudos que pudessem arranjar-lhe um trabalho para sustentar os três filhos, via-se obrigada a estar na rua a pedir. Dormia num armazém. Não tinha casa, nem qualquer tipo de segurança para os filhos que estavam quase em idade escolar.

A pobreza em Marrocos é maioritariamente feminina. E um problema que me remete de novo para Abdellah, o psicólogo que trabalha como terapeuta de jovens mães e mulheres abusadas. Mas dele falarei mais tarde.